A vitima
Descia Sta Catarina.
Como e' habitual, um individuo aproxima-se a pedir esmola. Ja nao me lembro qual era a causa, mas devia ser uma do costume... "Sou seropositivo e nao tenho emprego", "sou toxico-dependente e estou a tentar mudar de vida", "um donativo para as criancas", "uma esmola para comer", "para a liga contra o cancro", para isto... para aquilo.
Tinha acabado de usar as minhas moedas todas no parquimetro e pago as contas exorbitantes do mes. Estava atrasada, com mil coisas para fazer... e piursa da vida.
Digo antes de ouvir ate ao fim: "Nao obrigada, hoje nao!".
"Ah... mas olhe que... blablabla..."
"Desculpe mas nao." E desvio-me.
"Nao quer e' ajudar nao e'?" Olha-me com aquele esgar de desprezo, como se fosse a mais cruel e desprezivel capitalista, incapaz de um acto generoso para com o ser humano necessitado, enquanto me preparava para comprar frivolidades.
Fiquei furiosa com aquele olhar. Doente.
"Nao! Nao quero ajudar!"
"Quando precisar... hao de lhe fazer o mesmo!"
Virei costas.
Ja nao aguento gente que tenta imprimir sentimento de culpa nos outros para obter qualquer coisa. Sabe la quanto e' que a minha familia contribui anualmente para causas como a dele. Sabe la os trabalhos em que me meti para ajudar pessoas como ele. As noites que nao dormi porque fui visitar vitimas disto e daquilo ao hospital, os relatos que ouvi pacientemente dando apoio moral, as historias tragicas que presenciei, as horas passadas a tentar ajudar tanta gente que muitas vezes nem quer ajuda.
Quem tem o direito de dar olhares daqueles, que trespassam o coracao como setas, a pessoas perfeitamente desconhecidas que nao podem/nao querem ajudar em certas ocasioes? Que direito se tem de fazer juizos de valor dos outros so porque nao estao dispostos a distribuir moedinhas pela rua fora a todos os casos tragicos por que passam?
Quem julgam eles que sao? Possuidores da justica divina so porque a vida lhes foi cabra? Quantos infortunios desses nao os causaram a si proprios? Que moral tem para julgar as atitudes dos outros, lancar pragas, desdenhar?
E' sempre muito facil ser vitima. E' facil reclamar. E' facil pedir.
Dificil e' sobreviver sem muletas. Encarar a vida com a cara e a coragem, sem quimicos, sem penas, sem desculpas para se ser coitadinho. E' acordar todos os dias e aturar clientes que nao os querem ouvir num call-center, e' lavar escadas e retretes pelo salario minino, e' fazer turnos de 12 horas a coser fechos em saias, e' dar no duro diariamente para depois mal conseguir pagar as contas ao fim do mes. Esses nao tem tempo para andar a pedir em Sta Catarina. Nao tem tempo para estar doentes. Nao tem tempo para ser vitima.













